domingo, 31 de julho de 2011

.: Dentro do livro:.


E me sinto assim
como páginas arrancadas de um bom livro
onde toda a história
foi contada por mim


Onde tudo faz sentindo e meus pensamentos estão em linha reta


Busco páginas perdidas e tento encontrar em outros
autores, alguma inspiração


Tento dançar conforme a música que não escrevi
e tento mostrar que tudo no final vai fazer sentido


Mas não quero que meus livros sejam diários
onde cada palavra exprime meus sentimentos


Prefiro escrever assim, vagamente, onde no final apenas a mim será compreensível


Tento não fazer letras de música
Tento não buscar perfeição


Tento apenas me livrar de tudo isso que só faz crescer dentro de mim
e espero paciente que no fim, tudo faça sentido... ao menos para mim.


Isto me inspirou na tarde de hoje:

O SOBREVIVENTE

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)

Carlos Drummond de Andrade